sexta-feira, 22 de julho de 2011

O Passado OU História para boi dormir

Se tem algo que pouco merece minha atenção é o passado. Não é raro encontrar os saudosistas, aqueles que passam a vida toda rememorando o passado e suspirando, sempre colocando hipérboles nas pessoas que foram e nas coisas que aconteceram. Que a vida infantil era mais fácil para alguns pode até ser uma verdade absoluta, mas enquanto você era criança gostava daquela hierarquia familiar toda? O passado é só um filme em preto-e-branco que traumatiza alguns ou que serve de escudo para que se justifiquem os erros do presente, do futuro e da próxima reencarnação. O passado é um amontoado de experiências que tornarão as próximas decisões mais claras, mas não mais fáceis. O passado é só uma lembrança de qualquer coisa que parece um mero sonho/pesadelo se não são deixadas as provas concretas.

Um filho, uma cicatriz na pele ou um perfume talvez sejam os grandes objetos do passado. Eu tinha 5 anos quando meu irmão me levava no bagageiro da sua bicicleta vermelha pelos cômodos da casa ainda sem móveis. Estávamos sozinhos, enquanto minha mãe estava trabalhando em outro estado e o meu pai dando suas escapadelas conjugais. Não lembro da época, não lembro do rosto do meu irmão, nem do sangue que a catraca provocou no meu dedo desnudo. Não lembro sequer para quem meu irmão ligou para pedir ajuda. Não lembro o quanto chorei, nem quanto doeu. Não lembro nem que a bicicleta era vermelha, nem como era meu irmão pequenino. Não lembro como tudo aconteceu. Mas aconteceu, o meu dedão do pé é horrendo. A unha insiste em nascer grossa, se precavendo de qualquer nova catraca. O que a unha grossa não sabe é que não ando mais em bagageiros de bicicleta e o meu irmão já se foi há algum tempo.

Depois há o meu filho que me faz rememorar a adolescência e o jeans folgado demais para o meu corpo. Hoje as cicatrizes na barriga estão lá para dizer-me que uma gravidez houve ali. Assim como o filho, o objeto da prova sexual entre eu e o seu pai. Houve um passado, há marcas por todos os lados. E há os perfumes que nos transportam rapidamente pruma tormenta, mesmo que você esteja há anos de distância do ocorrido. Há perfumes que nos fazem flutuar de desejo como o cheiro de loção pós-barba daquele antigo amante na seção de cosméticos. E não é que você queira o amante de volta na sua cama ou na sua história, é apenas - e tão somente - o sentimento trazido pela fragrância.

O passado é talvez a coisa mais patética do mundo. Você pensa nela. Perde tempo com ela e não percebe que sentirá falta - uma enorme falta - do que agora é presente.

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Postado por Sarita às 02:05
 

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