domingo, 3 de abril de 2011

A garota mais popular da escola e eu.




O bullying tem sido a manchete de tantas notícias que eu comecei a rememorar minha infância na escola. Nunca fui uma garota comum. Eu tinha cabelos curtos, era alta demais para minha idade e não tinha o peso ideal. Eu não usava os mesmos objetos das minhas colegas de turma, só usava o que achava bonito. Nunca tive uma bolsa company ou um kichute, achava-os feios e sem graça. Eu sempre convivi bem comigo. Já me apelidaram de coisas depreciativas que envolviam meu cabelo ou a forma física. Mas eu tento lembrar se isso de alguma maneira me afetou, e não consigo dizer que sim.

Lembro de ter alguns poucos amigos, os que estavam fora dos padrões. Lembro do meu pai alcoólatra que nunca me levava às aulas e, por isso, eu ia de carona com a garota mais popular da escola que era minha vizinha. Aquela que era paquerada incondicionalmente e que todo ano era a rainha/princesa de alguma coisa ou estação. O que mais me intrigou (e que só agora parei pra pensar) é que na época eu pegava carona com ela, mas na escola, embora chegássemos na mesma hora, quem tomava notificação/reclamação da escola por atraso era só eu. Ela saía ilesa. Sempre. Embora eu estivesse pronta às 6h30 da manhã na sua calçada, esperando-a sair com a sua família bem estruturada, eu era punida por não conseguir chegar no horário correto das aulas. Agora fico mais intrigada ainda, será que a beleza compra até o horário que você chega em algum lugar? Não sei.

Minha "amiga popular" não me cumprimentava publicamente. Sempre emitindo risinhos com suas amigas nanicas e esbeltas quando eu passava. Eu chegava até a rir junto com elas. A verdade é que o bullying talvez nunca tenha "pegado" comigo. Eu gostava de não me sentir igual aquelas garotas. De não ficar de risinhos nos corredores. Eu preferia jogar bola com os garotos e escutar escondida os discos de rock do meu irmão. O tempo passou, comecei a ir de ônibus para escola. Meu pai não iria perder tempo com isso, eu entendi. Acabei saindo do lugar onde a garota popular estudava. Acabamos nos cruzando em outras escolas, mas embora eu fosse sua amiga de infância, sentia que ela achava inconveniente aquele vínculo. Por muito tempo ouvi seus risinhos irônicos na minha direção e o mais sensato foi fingir que não a conhecia, o que para ela foi um alívio.

Não demorou muito para perdermos absolutamente o contato, porém o vínculo com amigos em comum acabava por nos deixar saber notícia uma da outra. Soube que ela casara com o primeiro namorado e não tinha filhos. Os anos passaram mais um pouco, eu engravidei sem casamento, com o quarto namorado, eu acho. E estranhamente nossas vidas se cruzaram de novo através de uma amiga em comum que me convidou para um jantar. Chegando lá encontrei a moça popular com um corpanzil e um filho numa cadeira de rodas. Seu marido, contou-me nossa amiga em comum, era infiel. E que ela desenvolvera problemas com o álcool, como uma espécie de escape. Choquei-me com o fato, fiquei deprimida por um mês inteiro. Não, não me senti vitoriosa por meu filho ser saudável e por eu não estar num casamento falido. Não senti qualquer sensação de "Acho é bom". E não digo isso aqui porque é politicamente correto. Digo porque realmente o bullying que ela praticou comigo durante toda nossa infância nunca me afetou. Fiquei pensando muito em tudo, em como ela teve sucesso durante toda sua infância. Em como tirava notas boas e podia escolher qualquer garoto para "namorar". Pensei nas vezes que a sua roupa era a mais elogiada ou quando era a garota que dançava melhor lambada. Lembrei dos seus pais, trabalhadores, sempre presentes. Lembrei como ela segurou a mão do menino que eu estava super afim. Até lembrei quando meu pai me comparou com ela, dizendo que eu não era adequada. Lembrei dos apelidos pejorativos dirigidos a mim. Das suas piadas sempre engraçadas ou de como o seu cabelo era longo e tinha uma cor mel que todos admiravam. Lembro quando ela foi escolhida a mais bonita da rua, da escola e de qualquer lugar que ela pudesse freqüentar ou estar. Lembrei de tudo e achei injusto. Por que Deus lhe concedeu tanto conforto e depois lhe puxou o tapete?


Até a próxima,
@A_Sarita
sarita@corporativismofeminino.com


P.S.: Meu filho é um dos garotos mais populares da escola e sempre tenta trazer todos para o seu grupo, não admite que apelidos depreciativos sejam dados. Ele já foi à delegacia denunciar um garoto que batia em outros garotos mais novos. Ele não admite que atributos físicos sejam colocados na frente do que a pessoa realmente é. Não é à toa que no seu aniversário recebi tantos amigos, de todos tipos e formas físicas. Se eu puder me sentir vingada (se for o caso) é pelo fato do meu filho estar trabalhando essa conduta por aí. Isso me enche de orgulho dele, da pessoa boa e feliz que ele realmente é.

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Postado por Sarita às 21:10
 

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