quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Texto da Leitora: Eu, contra mim mesma, puxando meu próprio tapete

Depressão é uma doença séria, mas infelizmente ainda é menosprezada por muitos. Tanto por alheios, que muitas vezes acham que os que sofrem de depressão na verdade estão de frescura, corpo mole, preguiça, e coisas do gênero, quanto por aqueles que a adquirem e muitas vezes não percebem sua mudança de comportamento e acabam se acomodando em um mundo depressivo sem perceber, sem acreditar. Esse foi meu caso por um longo tempo.

A depressão foi me consumindo aos poucos, a perca de interesse pelos estudos, trabalho e hobbies. Vontade extrema de ficar em casa fazendo nada, falta de coragem e de ânimo pra coisas simples como organizar meias ou sair pra uma festa, enfim, desanimo absoluto. Oscilar entre picos de extrema sonolência e insônia, uma vontade imensa e incontrolável de chorar que vem do nada, e mais uma série de coisas que por muitas vezes preferi chamar de preguiça a acreditar que era depressão.

Eu diria que passei anos menosprezando sintomas depressão, que foram aumentando a cada dia, até que cheguei a um ponto em que já estava decidida a procurar ajuda, mas protelei enquanto pude, e quando já estava de consulta marcada com um psiquiatra para o mês seguinte, o que eu menos esperava aconteceu. Sofri uma crise, tremenda (e horrível) provocada pela depressão. Sem dúvidas, foi uma das piores experiências da minha vida.

Além da depressão, sempre sofri de ansiedade, as duas juntas culminaram nesse momento de crise. Foram dias que, juro, nunca imaginei que fosse vivenciar.

Tive ataques de pânico com direito à coração disparado, insônia, dormência - que começou nos dedos e se alastrou pelos braços, pernas, pescoço, cheguei a pensar que fosse ficar inconsciente, mas graças a Deus isso não aconteceu. Tive que parar no hospital algumas vezes para conseguir remédio pra dormir – sem eles, eu passava uma noite que podemos chamar de noite do terror, sem conseguir dormir, respiração ofegante, com sensação de que ia ter um ataque a qualquer momento. Cheguei a pensar que estava ficando louca. Em uma das crises cheguei a tomar seis calmantes fototerápicos de uma só vez – sem que me provocassem qualquer efeito. E confesso, cheguei a ir na cozinha e pegar uma faca. Mas não tive e não teria coragem de fazer nada contra mim. Na verdade eu achava que precisava ser internada, não suportava mais aquela consciência doentia dentro de mim.

Desde então passei a entender melhor as pessoas que comentem suícidios ou que vivem embriagadas. Não cheguei a pensar serialmente em suicidar-me, mas pensaria se a situação tivesse continuado por mais dias. Ou buscaria algum refugio no álcool ou em qualquer outra coisa que pudesse me entorpecer.

E nesses dias que eu soube verdadeiramente o que é ter uma depressão profunda. O que é querer ficar estatelada em um canto qualquer sem vontade de se mexer, sem vontade de comer, de tomar banho, de trocar de roupa, de pentear os cabelos. A vontade de tentar dormir e não conseguir, pois bastavam 15 minutos de cochilo pra acordar com o coração querendo sair pela boca.

A vontade de ler um livro e perceber não consegue prestar atenção em uma linha sequer. A vontade de ver um filme e perceber que não absorvia 0,001% do que os personagens dizem. A vontade de urinar gotinhas a cada 5 minutos, pois o controle do meu corpo já não era meu.

Ficar encostada em um sofá ou uma cama qualquer não era um conforto, e sim, apenas uma tentativa de conforto, mas aquela sensação ruim continuava dentro de mim o tempo todo.

Fui à psiquiatra, que não precisou de muito para diagnosticar o que se passava. Fui medicada, recebi algumas orientações e a garantia de que aquilo tudo ia passar. Voltei pra casa, e felizmente, passou. O pior passou, a crise passou. Mas ainda continuo na luta contra a depressão, uma batalha à favor da felicidade, que, sinto informar, não é fácil ser vencida. Por mais que eu me esforce, não é fácil. Parece mais fácil que o mundo realmente acabe em 2012, ou melhor, que acabe amanhã mesmo. Meus amigos e minha família sabem o quanto tento lutar contra isso, mas infelizmente não é tão fácil quanto muitos pensam.

Enfim, com esse texto eu só queria dizer e pedir que nunca menosprezem uma doença desse tipo, com você, com amigos ou familiares. Depressão não é frescura, não é preguiça, não é corpo mole. Depressão é uma doença real, e só quem passa ou já passou por algo do tipo, sabe o quão difícil é lutar contra ela.

Rose

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Postado por CF às 10:37

17 comentários:

Talita on 5 de agosto de 2010 12:03 disse...

Sei bem como é isso aí.
Mas não adianta, sabe?
O outro sempre tem uma fórmula mágica pra resolver nossos problemas - mesmo sem resolver a própria vida - e assim nos julga frescos ou dizem que queremos é confete.

Eu tive depressão e hoje tenho que ter muito cuidado pra não deixar que ela volte.

:/

Falena disse...

Já passei por situações difíceis também... tenho um quadro depressivo leve desde criança, que nunca tinha sido tratado. Minha família nunca quis admitir (e não admite até hoje) que tenho depressão e isso, com a falta de tratamento, dificulta muito a melhora, mas sempre me apoiei nos meus amigos e atualmente no meu namorado pra me reerguer.

Quando meu namorado mudou de estado no ano passado e o meu mundo desabou novamente, quase larguei a faculdade, não queria mais ver amigos ou família, estava me isolando de tudo e de todos. Nunca cheguei a ter crises fortes como você descreveu, mas não sei como estaria hoje se não tivesse procurado ajuda (por vontade própria) a alguns meses atras e hoje estou melhorando. Mas ainda tenho altas e baixas. Espero ter cada vez mais altas. Saber que não estamos sozinhos ajuda e muito =)

Luh on 5 de agosto de 2010 12:29 disse...

Concordo com você... tive início de depressão, mas procurei ajuda a tempo. Procurei uma amiga que trabalha com acupuntura pedindo que ela me indicasse algum psicólogo. Ela perguntou o que estava acontecendo e expliquei a ela que tinha perdido o ânimo. Parei de malhar, de sair, ia trabalhar, voltava e infurnava no meu quarto, com a porta fechada e só levantava para trabalhar. Ela falou que ia cuidar de mim com acunputura mesmo e que se ela visse que não estava dando resultado, ela me enviaria a um psicólogo. A Acupuntura me ajudou e graças a Deus venci. Às vezes começo a ter recaídas, mas como já sei o que é, dou um jeito de balançar a poeira e dar a volta por cima. Isso não é frescura ou corpo mole realmente e só quem passa sabe o que é.
Beijos e boa sorte...

kafran on 5 de agosto de 2010 12:39 disse...

Poxa, não sei nem o que dizer.

Camilla disse...

Senti como se o texto fosse meu. Fico feliz por você estar melhor. Eu sei que preciso de ajuda mas não tenho ânimo pra isso, minha energia vital foi consumida.

Zingara on 5 de agosto de 2010 13:46 disse...

Tenho uma tia que é sustentada por minha mãe. Ela toma medicamentos pesados para fugir da depressão. Sempre foi depressiva, desde a infância, inclusive, e foi negligenciada sem tratamentos. Posteriormente, ela se casou e quando foi deixada pelo marido piorou drasticamente. Mal toma banho, a casa vive imunda.

Os outros familiares, tirando a minha mãe, não a ajudam, dizem que ela se acomodou porque tem o apoio da minha mãe. E que se tivesse que trabalhar para comer, a depressão passaria rapidinho...

Mas quem sabe? Só quem passa, de fato.

Estou numa fase muito sombria da minha vida, mas se é ou não depressão eu não sei.

Admirável seu depoimento. Sei que ajudará muitas outras.

Força sempre a todos nós, depressivos ou não.

* Tenho uns 2 textos falando de suicídio, depressão e doenças psicológicas e todas devem soar agressivas para quem está sofrendo com um mal como esse. Somente acredito no que EU vivo, por isso não posso dizer se é maior ou menor.

Tata disse...

Oi Rose...
Minha mãe passou por isso, graças a Deus melhorou...
Alem de ter vivenciado isso, escolhi estudar psicologia, entendemos bem o que é isso e o quão horrivel e dificil é.
O que eu posso te dizer é que além do seu tratamento psiquiatrico faça psicoterapia com um psicólogo também, um bom profissional de psicologia junto com a sua vontade e força aparente de melhorar pode fazer muito bem pra você.
Boa sorte!


* Zingara você tem razão, somente nós mesmos sabemos o que passamos, e ninguem mais pode dizer se uma dor/problema é maior ou menor que o do outro, e seus textos sobre o assunto são bons.

Dama de Cinzas on 5 de agosto de 2010 17:49 disse...

Ei tive problemas sérios de depressão que se agravaram devido a medicações que tive que tomar... Foi um sofrimento intenso por anos... Felizmente hoje me encontro recuperada...

Beijocas

Anônimo disse...

1. Não existe 'começo' de depressão, como falaram acima, nem depressão que cura com acupuntura!

2. Infelizmente, a sociedade é mto hipócrita, td mundo fala sempre q está deprimido, mas, na hora em q alguém REALMENTE está deprimido, acaba sendo marginalizado e taxado de preguiçoso, inclusive pela própria família.

Vivenciei um longo período de trevas na minha vida, que se arrastou durante cerca de 8 anos. Só agora estou me reerguendo. Sei o que é você chegar ao fundo do poço, ficar na merda. Nunca havia reprovado na minha vida, mas no auge da depressão, reprovei por faltas, pq não saía da cama para nada, além de fazer xixi. Não queria tomar banho, não comia (e sempre fui gorda e gulosa), fiquei esquelética. Tinha sono demais, mas, às vezes, acordava e ficava pensando na vida, sem me mexer na cama, chorando demais, até não conseguir manter os olhos abertos, de tão inchados. Um professor me chamou de incompetente e me sugeriu largar a faculdade; tios se voltaram contra mim, por estar "fazendo meus pais sofrerem" e eu me sentia culpada. Negava. Achava que, sim, era preguiça. Foram 2 tentativas de suicídio (uma de moderada gravidade) e uma quase-tentativa que foi abortada nem sei por qual razão.. mas q se não tivesse desistido, seria fatal. Porque eu sei como me matar, caso eu queira (sou formada em Farmácia). Nessa hora, veio algo forte, uma coisa de não querer mais dar o gosto dos outros poderem me chamar de fraca ou de me crucificar. Eu sabia que tinha de sair daquela lama, pq eu merecia mais que aquilo: não por aquilo que eu estava sendo, mas por tudo q eu fora antes, até 2001, antes da depressão arruinar minha vida. Eu resolvi comprar um cachorro. Isso mesmo! E o fato de vc ter alguém q chora com você, q sorri pra você, q lhe lambe para demonstrar q se importa e q está sempre aí, sem querer nada em troca, esse comprometimento me ajudou a querer sair da lama. Pq eu acho q querer, no fundo, td mundo quer sair (da depressão), mas é um querer débil, comparado à facilidade maior de se manter na lama, já que, enquanto estiver na fossa, daí não passa. A gente precisa perder o medo de voltar a ficar muito mal, se quiser melhorar. E precisa aprender a não depender de ninguém. Buscar um bom psiquiatra, tomar as medicações e tentar encontrar uma razão muito forte pra querer sair disso... eu encontrei meu cachorro, e claro q isso não fez milagres, mas me importar com ele - que tanto me ama - fez eu notar que preciso estar bem comigo, pra retribuir tudo o q ele tem me dado de afeto e confiança!
.
Não desista! A depressão muitas vezes não tem cura, haverá altos e baixos, mas, quem sabe, você não consegue ser uma daquelas que venceram esse fantasma para sempre? Eu não consegui, sei q vai ser sempre assim, idas e vindas, mas aprendi a me reerguer um pouquinho todo dia, antes de o coração estatelar completamente no chão. Aprendi a subir antes que o buraco fique embaixo demais!

Jr. disse...

Durante a adolescência eu cheguei a pesar 51kg, não saia de casa, até banho eu não tomava. Mas achavam que era uma fase. Ela foi longa, dura até hoje, porém eu só tenho fases de depressão, meu humor se altera muito rápido, o que me complica é a distímia em comorbidade com um TPB.

Fiquei internado em uma clínica psiquiátrica quando meu humor ciclou para uma depressão e não saia dela, já havia atentado contra a minha vida.

Não, não é frescura, é doença...em uma analogia grotesca, não é possível só com força de vontade impedir que um tumor cresça dentro de você. O mesmo para essa tristeza que no meu caso é quase sempre sem razão.

Anônimo disse...

eu sei bem como é essa sensação, tenho depressão desde os 12 anos, por mais difícil de acreditar que seja.

o pior foi ouvir do único homem que eu tenho certeza que eu amei, meu primeiro amor, que depressão era falta do que fazer.

compreendo essa dor e essa luta, realmente, só quem já teve sabe como é.

Zingara on 5 de agosto de 2010 20:30 disse...

Obrigada, Tata! ;] Essa discussão dá um caldo danado. Lembro das comunidades no Orkut, bem no início de sua criação, gente reclamando que tristeza e depressão nada tem a ver. Enfim, que tenhamos forças para suportar essa vida que passa rápido - Bom para alguns, péssimo para outros. Mas passa.

Andréia Freire on 5 de agosto de 2010 21:38 disse...

Eu não passei por nada do tipo, mas acho o comentário do anônimo acima muito pertinente. Um bicho de estimação como um cachorro pode ajudar sim, não cura, mas ajuda. Que eu me lembre já até fizeram pesquisas sobre essa relação bichos/ depressão.

Anônimo disse...

Oi td bom?
Eu não tenho nem nunca tive depressão mas tenho pessoas muito próximas de mim e que amo muito com este problema.
Não vou dizer que sei que é dificil pq não sei mas admiro as pessoas que tal como vc encaram a depressão e fazem os possíveis para sair dela e acredita para nós que amamos pessoas que sofrem de depressão é muito duro a sensação de impotência, ver aquela tristeza nos olhos do outro e não poder fazer nada, tentar animar sair conversar e ver que não dá em nada não pq não querem mas porque não podem, doí muito.
Não vou dar-te nenhum concelho e nem posso mas pensa que já fizeste muito e que o pior já passou tens é de ter muito orgulho em ti própria e pensar que és feliz e que ainda podes ser mais ainda.
Beijão
Dagi

Ana Vicente on 7 de agosto de 2010 12:03 disse...

Isso não é um post, é utilidade públlica...algumas vezes passei semanas chorando de cabeça cobreta, e meus pais achavam que era frescura... Nunca fiz tratamento. Casada, também tenho crises, meu marido acha que é pra chamar a atenção.
Faço tratamento alternativo que tem feito muito bem.
Mas é difícil ficar bem se a doença é entendida como manha.

Ana disse...

Me identifiquei com o texto...começou já quando eu era criança. Eu era diferente das outras,taciturna. Com 10 anos eu comecei a piorar,eu me deitava na cama e passava horas,não queria levantar.Não queria sair. Eu também sofria bullying,todos me chamavam de feia,inventavam coisas sobre mim. Quando eu andava eu olhava para baixo,até hoje me sinto desconfortável olhando diretamente para as pessoas...meu humor mudava do nada,eu tinha crises de choro repentinas. Hoje em dia eu tenho uma ansiedade extrema,frequentemente eu sinto um desespero súbito,minha mente vira uma confusão e é como se eu fosse explodir...eu tenho uma política de "mantenha-se entretida o tempo todo" assim eu evito pensar sobre mim,sobre a minha vida,sobre qualquer coisa. Mas é como se fosse uma cobra apenas esperando o momento certo para dar o bote,e eu nunca posso fugir disso...acho que não tem fim...
Eu olho para os adolescentes da minha idade e eu só queria ser como eles...

sindro on 6 de março de 2011 15:26 disse...

Oi

Passem no meu blog de textos femininos, sobre depressão, peso e outros temas afins,obrigado.

Espero vocês lá. Beijo.

 

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