quinta-feira, 8 de abril de 2010

Você sabe o que é ter pavor de baratas voadoras?

17 anos, um pai alcoólatra e uma mãe ausente me fizeram sair de casa. Fui morar num quarto de pensão próximo a universidade. Criada sem forrar a cama ou lavar um copo, eu tive que tomar vergonha na cara sozinha. Matar baratas voadoras logo ficou simples e indolor. Eu sabia que não haveria ninguém para me ajudar naquilo. O asco desenvolvido por longos anos foi esmigalhado pelo meu tênis vermelho vagabundo.

Sempre achei que fobias ou pânicos são curáveis por nossas próprias mãos. E me arrisco nesse momento a receber comentários ferozes. Nós, aquarianos, estamos aí para isso: Gerar polêmica; expor o outro lado (mesmo que não estejamos de nenhum lado da verdade). Sintam-se livres para rosnar.

Nunca deixei que meu pai me traumatizasse ou ele teria sua vitória triunfante de terrorista emocional. E, por isso, me deixei levar por amores tórridos, confiando em homens aqui e ali, sem ter em mente a emblemática e podre imagem masculina do meu pai. Fui feliz de vez em quando, sem lembrar muito do passado, contrariando o saudosismo humano que sempre apregoa belezas ao passado. Ou endeusando pessoas mortas que foram podres em vida. Vocês são todos muito estranhos.

Meu pai agora está morto. Recebi a notícia há dias atrás. Não chorei, não me senti aliviada, não fiquei feliz. Chorei sua morte há muito tempo atrás, sozinha, num quarto de pensão ao matar uma barata voadora que pousou nos meus livros da estante. A barata sabe como eu o amei, ela foi testemunha da minha homenagem à sua morte. Ela sabe que ao esmigalhá-la perdi um medo.

Não raro, encontro pessoas se escondendo na fortaleza de suas fobias e pânicos. Deixam que elas vivam, enquanto flertam à sombra com suas vida. Nada se popularizou mais que a aclamada BIPOLARIDADE. Você ri e chora em fração de segundos. Crianças são assim, serão elas bipolares? O mundo fica simples para quem se declara BIPOLAR, não? Se eu banco ALOK, justifico o devaneio com o fato de alavancar uma onda negativa vez ou outra. CERTO, isso é comprovado cientificamente, e eu estou sendo injusta ao dizer que TODAS as pessoas estão fingindo. Se não todas, mas quase todas, tem fobias e pânicos irracionais que são contornáveis. Mas se elas se valem do conforto de suas fobias vão continuar lá, amedrontadas por um pokemon. Eu e a barata voadora sabemos disso.

Vamos falar de pânico. Da famosa síndrome do pânico. Quando tirei a carta de motorista, parei de pegar ônibus ou táxi. Ia do trabalho para casa, todo dia. Num carro, sozinha. Via poucas pessoas. Até que um dia tive que pagar uma conta no Setor Comercial e, bem, quase desmaio ao me deparar com uma imensidão de humanos indo e vindo. Asfixia. Pensei: Que porra é essa, meu Deus? Li sobre o assunto e havia um diagnóstico: Síndrome do Pânico. Arrisco-me a ferir psicólogos e estudiosos da psique humana agora, dizendo que: Teorizar suas angústias SEMPRE tornará firme uma patologia. Funciona como uma bula de remédio. Se você tiver paranóias e estiver pré-disposto vai sentir todo o efeito colateral. E, por isso, embora eu faça terapia, sempre me pergunto SE nós não somos responsáveis por nossos próprios diagnósticos psicológicos.

Quando pensei "Tenho síndrome do pânico", eu me apressei em enfiar o carro na garagem. Não comentei com ninguém o assunto, me permiti a asfixia e fui de metrô por longas semanas. Se eu pude enfrentar o meu pai por longos anos e esmigalhar uma barata voadora... Não seria a multidão que me faria recuar.

E você já esmigalhou algum medo? Conte-me!

* Post para ser ouvido ao som de Leila (Legião Urbana).

As grandes dores fazem com que as menores mal sejam sentidas e, na falta das grandes, até o menor desgosto nos atormenta. SCHOPENHAUER

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Postado por Sarita às 00:01

15 comentários:

Anônimo disse...

Adorei o texto!
Meus pais são ótimos comigo e, apesar do meu pai também já ter sofrido com alcoolismo, não tive nenhum grande trauma.
Talvez por isso coisas pequenas me incomodam mais do que gostaria...
Gostei da citação.. Tudo a ver.
Não gostei muito da música, mas tenho de admitir que tem tudo a ver com o tema =o)
Abraços!

Daia.BSilva on 8 de abril de 2010 10:06 disse...

Já tive um medo IMENSO de aranhas... uma bela noite, antes de ir pra cama enquanto estava no pc, surgiu uma aranha imensa na parede, do meu ladinho... quase morri do coração. Chamei minha mãe para matá-la, mas a véia já tá meio cega e ao invés de matar a aranha, a fez cair da parede... foi dormir. Fiquei em pânico no meu quarto, perguntando-me onde diabos aquele bicho imenso e asqueroso estaria, ali, no meu quarto. Com todo o medo do mundo e chorando litros, tirei móveis do lugar, procurei e por fim, matei a maldita. Depois desse dia, ficou razoávelmente + fácil encarar e exterminar aranhas...

Catiele P. on 8 de abril de 2010 11:27 disse...

Simplesmente tenho uma coisa a dizer:
P A R A B E N S pelo post.
Mto bem escrito, como tantos outros que aqui leio, mas dessa vez, expor idéias assim, as vzs nao entendidas por pessoas que nao as vivenciam, fica dificil mesmo, mas nao, o post ficou maravilhoso, nao ficou enorme e cansativo, ficou de facil compreensao, até mesmo pra quem diz nao sofrer nenhum medo/fobia.
Como boa escorpiana que sou, sempre lido com medos, e luto pra derrota-los, sou muito mais forte do que qualquer fobia, sei tbm que as vzs nao é nada facil e que o psicológico é o nosso bem mais precioso, ele faz de vc um fracassado ou um forte guerreiro, estamos 'nas maos do psiquico... mas me deixo levar pelasminhas alegrias, elas transpassam os medos, entao vivo delas, e nao me lembro de medo algum... uma forma que criei pra conseguir ir adiante, sem pensar no medo de ficar sozinha no mundo, mas nao, sempre terei a mim mesma, e se eu gostar de ficar comigo, nao ter medo disso, mutas outras pessoas tbm gostarao e merecerao a mim. Bom, por hj é isso. Sou fãzona do blog. Bjoos, sucesso sempre!!

Carol Fonseca on 8 de abril de 2010 11:51 disse...

Mas você sabe o que é ter pavor,pavor,pavor de baratas voadoras!!!
Ás vezes as coisas são difíceis minha amiga... adoro a música,adorei o texto,e sabe do que eu tenho medo? de não se feliz no amor,pq o resto da feleicidade eu já tenho,só no maor que nunca dá certo,e eu acho que nasci pra ser sozinha,isso me amedronta profundamente,hoje.

Crazy on 8 de abril de 2010 15:49 disse...

Concordo em gênero, número e grau quando vc fala que "O mundo fica simples para quem se declara BIPOLAR, não? Se eu banco ALOK, justifico o devaneio com o fato de alavancar uma onda negativa vez ou outra"
Atualmente, tenho visto um número crescente de gente se declarando bipolar, parece até q virou moda ser bipolar. Sendo que, muitas vezes, o que falta é a pessoa tentar controlar seus próprios impulsos. Assim como vc matou as baratas e decidiu enfrentar a multidão deixando o carro na garagem. Mas, para quem gosta de ter rompantes de mau gênio (ou de frescurite aguda), é muito mais fácil se auto-diagnosticar como bipolar e ainda se achar "cool" por causa disso ¬¬(nada contra quem realmente tem essa doença, mas a maioria das pessoas quem a tem de verdade são diagnosticadas por um MÉDICO, pois é praticamente impossível viver o dia-a-dia sendo bipolar de verdade sem algum tipo de tratamento medicamentoso); Agora, de gente q faz e acontece e depois diz ser bipolar eu já estou farta (e sempre são mulheres... nunca ouvi um homem dizendo ser bipolar. pq será?)

Mariana on 8 de abril de 2010 16:08 disse...

olá!
realmente mta gente transforma todo morto em papai-noel e isso é péssimo. Qdo meu pai morreu tb tive um alívio, sensação de ter fechado um ciclo. Não era alcoolatra mas era um ótimo terrorista emocional.
Ainda fantasiei que tudo podia ter sido diferente mas passado 2 anos e olhando para trás sei que não seria.
Respire fundo e siga, outras baratas aparecerão mas vc já sabe usar o tênis vermelho!

sindrome on 8 de abril de 2010 17:32 disse...

oi visite o meu blog de sindrome do panico,obrigado.

vitória on 8 de abril de 2010 18:51 disse...

me identifiquei com vários elementos do texto, maravilhoso por sinal. eu admiro a tua coragem, como tu fazia pra te sustentar quando saiu de casa?

beijos

Natalia Opazo on 8 de abril de 2010 20:03 disse...

ótimo o texto! muito, muito bom mesmo!
você tem toda razão, não temos que fugir do medo, temos que enfrentá-lo, só assim algum dia vamos poder superá-lo.
Está de parabéns :D

Heleninha on 8 de abril de 2010 23:43 disse...

Zin, esse é um dos seus melhores textos, muito bem escrito e eu concordo com absolutamente tudo.

=**

Heleninha

Mariana on 9 de abril de 2010 15:02 disse...

Simplesmente amei o texto, cheio de emoção. Me identifiquei bastante, não pela mesma situação, mas especialmente por essa parte "Teorizar suas angústias SEMPRE tornará firme uma patologia. Funciona como uma bula de remédio. Se você tiver paranóias e estiver pré-disposto vai sentir todo o efeito colateral. E, por isso, embora eu faça terapia, sempre me pergunto SE nós não somos responsáveis por nossos próprios diagnósticos psicológicos."
Genial e verdadeiro.

Mariana on 9 de abril de 2010 15:02 disse...

Simplesmente amei o texto, cheio de emoção. Me identifiquei bastante, não pela mesma situação, mas especialmente por essa parte "Teorizar suas angústias SEMPRE tornará firme uma patologia. Funciona como uma bula de remédio. Se você tiver paranóias e estiver pré-disposto vai sentir todo o efeito colateral. E, por isso, embora eu faça terapia, sempre me pergunto SE nós não somos responsáveis por nossos próprios diagnósticos psicológicos."
Genial e verdadeiro.

Bel on 10 de abril de 2010 13:49 disse...

Mais do que tudo, coragem para assumir os medos e enfrentá-los. Isso é que nos dá o poder sobre eles. Sou meio como você, no que diz respeito ao pensamento sobre as bulas de remédios e talz... E embora nao tenha sofrido violência doméstica por meu pai, sofri muita violência psicológida do homem com quem fui casada por 20 anos. E consegui enfrentar, me libertar e amar de novo. É assim.

Bjo!

Pati disse...

Noooooooossa, arrasou!
Gostaria de saber expor meus sentimentos em palavras tão bem quanto você expõe os seus!
Lindo, lindo, lindo post, ótima metáfora.
Sou leitora do blog há algum tempo, rio com alguns posts, outros me fazem pensar, e esse me fez comentar.
Parabéns, viu?! Ficou realmente um ótimo post.
Um beijinho.

Fer Martins on 13 de abril de 2010 00:18 disse...

Muito bom o texto!

Nunca esmigalhei nenhuma fobia, barata, nem mesmo meu pai, embora tenha vontade (do que, você decide).

Mas em breve, algum desses eu vou fazer. Me prometi.

 

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