quinta-feira, 22 de abril de 2010

Timidez: De Charlie Brown ao Máskara

A timidez lhe trancafia num porão e faz você sentir um medo sem objeto, nem textura. Você treme, pode chegar a desfalecer, talvez a visão fique turva, seus lábios fiquem secos e o suor frio pode lamber o seu corpo. E mesmo que você queira que tudo passe, a timidez estará lá, atenta e em guarda.

Sou tímida e já posso ouvir risinhos ao dizer essa simples frase. Isso porque quem me conhece sabe como me porto de forma descontraída e pouco reservada. Em entrevistas de emprego ou dinâmicas de grupo sou a primeira a falar. Também me saio muito melhor em seminários do que em provas escritas.

Tudo bem, vou contar o meu segredo. Mas antes disso, deixarei todos cientes de como continuo tímida e, mesmo assim, falando em público. Quis contar essa história para salvar a vida (pretensão, não?) de algum tímido. Pois bem, aos 12 anos eu estava fora dos padrões escolares. Era a menina esquisita que sentava na última carteira por ser uns 20cm mais alta que os demais (Não, não sou alta hoje!). E talvez isso fosse munição para timidez, embora o DNA tenha mais respaldo. Meu pai aos 30 anos era tímido, perdia várias oportunidades por isso. Escrevia bem, mas não conseguia se expressar. Passava mal, tinha enxaquecas ao pensar na possibilidade de apresentar um trabalho oralmente.

Herdei essa coisa da escrita dele - E da minha mãe também. Portanto, nos anos escolares, minhas redações eram as escolhidas e eu chamada a frente para lê-las. Eu tentava ir. Tentava. Cheguei a desmaiar por várias vezes. Freiras são cruéis afinal. Lembro de me levantar da última carteira e andar até a lousa entre os olhos atentos de 40 alunos. Lembro da visão turva, escura e de, bem, o chão. O que fiz? Nada, apenas não escrevi mais redações.

Meus pais foram chamados. E eu não escreveria mais redações. Mesmo que isso pudesse me levar à reprovação. Minha mãe não me deu uma pilastra de presente para que eu me escondesse, não assinou o atestado de "Ela é doente de timidez". Apenas me disse que era tudo bobagem. Assim: Bobagem. Explico, minha mãe é palestrante, oradora, cara-de-pau e tudo que você usaria como antônimo de timidez. Para ela era simples. Para mim, um pesadelo.

Claro que a historinha da redação é só um episódio de MUITOS. Já estive prestes a ganhar uma medalha de ouro QUANDO uma platéia decidiu gritar meu nome... E eu perdi. Tremi tanto que não conseguia dar um mísera sacada (vôlei). Aquilo tudo era tão ridículo. Eu não queria ver as coisas passarem por mim. Queria contar pro menino da 8ª série que eu o achava muito interessante. Queria contar pros outros o que eu pensava sobre o tempo e espaço com a minha voz. Queria pronunciar minha voz grave para os outros e ter seus olhos atentos a mim.

Eu tinha um plano. Eu não seria tímida. Nunca mais. Pedi para sair da antiga escola, onde eu era a menina-que-desmaia. Matriculei-me num curso de teatro para crianças. Eu não era aquela. Era outra, uma nova. Uma que não teme platéias e poderia ler 10 redações na frente de 400 alunos. Entrei no personagem. Continuo dentro dele. Por isso, reafirmo, sou tímida. Mas ninguém sabe. Talvez aquelas antigas freiras, talvez aqueles 40 alunos. E agora vocês.

Diante de uma roda de 20 pessoas numa dinâmica de grupo, alguém com desenvoltura, gesticulando e olhando para todos com simpatia começa a sua apresentação. Permitam-me continuar "isso" em terceira pessoa, ela, essa mulher nada tímida, diz o que já fez e quais são seus hobbies. E, sabe, esse personagem sou eu em boa parte do tempo. Ele existe para que eu possa circular entre vocês. Sabe a história do Máskara? Talvez seja parecida com a minha. Isso é "se esconder", isso é "abafar"? Não sei, importante é que eu não perca as oportunidades por causa de míseros tremeliques.

Eu sou tímida. E esse é o nosso pequeno segredo.

Charlie Brown foi o personagem que melhor representou a timidez:



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Postado por Sarita às 00:01

9 comentários:

Thaís Prado on 22 de abril de 2010 00:26 disse...

Sei muuuito bem como é isso!
Morei na praia um bom tempo e quando vim pra SP era a maior jacuzona, não falava com ninguém, "O" bloqueio humano.

Um dia me deu um baque e eu comecei a ser uma pessoa MUITO mais comunicativa e senti que perceber qualidades suas sendo apreciadas pelos outros, faz com que você queira mostrá-las mais.
Ganho cada vez mais por ter conseguido me soltar; mais amigos, mais clarezas, menos mal entendidos e muito mais leveza na vida!

Adorei o post! =) Beijos, querida!

Lu Dantas on 22 de abril de 2010 01:30 disse...

É engraçado ver como a maioria das pessoas tem traços de uma timidez que se estende por anos ou é bem resolvida. Como vc, também optei por deixar de lado o medo de me expor e, às vezes, o excesso me supera e falo sem parar..rsrsr

Estava lembrando do Charlie Brown, que vc aponta como resumo de timidez. Realmente ele é tímido e ainda guarda aquele medo de não conhecer o mundo e nem a si mesmo. Curioso e ansioso. Cabe-lhe até uma certa agonia com o fracasso que encara e, às vezes, aceita. Foi bom lembrar disso.

Gosto dos seus textos, viu!

Beijão

Franciele on 22 de abril de 2010 09:28 disse...

Eu sou extrovertida pra falar no meio de pessoas mas super tímida pra fazer novas amizades ou começar relacionamentos. Quando criança também fui super fechada!

Beijos

adri on 22 de abril de 2010 10:42 disse...

Adorei o texto. Também sou tímida, quem me conhece há algum tempo não acredita quando eu falo porque entre amigos/conhecidos sou super extrovertida, falo muito, rio muito, mas quando me deparo com novas pessoas travo bastante. Eu meio que dependo de alguém, já íntimo, pra eu poder me soltar, pois não sei fazer amizades sozinha. Sobre criar um personagem, já pensei sobre isso, fingir que não sou eu em alguns aspectos seria perfeito para driblar a timidez, não costumo ter muito sucesso quando faço isso, às vezes me extrapolo e fico extrovertida demais; hahaha, esses extremos.

Fernanda Carvalho on 22 de abril de 2010 10:51 disse...

Sei bem o que é isso, e sempre tive vontade de fazer teatro só não sei aonde hahaha
Mas o meu caso não chega ao extremo como desmaiar é só mão tremendo,suando frio e a voz que deveria sair falhando horrivelmente enquanto eu penso "vai ta tudo bem você consegue" mas eu travo bonito haha

Adorei o post

Hannah Ramos on 22 de abril de 2010 11:43 disse...

Ao contrario de voce, quando eu era pequena era mais extrovertida... sempre lia as redacoes na frente da turma, adorava falar em publico, cantava na igreja etc... e com o passar dos anos fui ficando timida, chegava a ficar empolada de vergonha as vezes ( confesso que ainda nao é muito dificil isso acontecer) rs
Que bom que as aulas de teatro te ajudaram e por causa disso vc ter tido maiores oportunidades como pessoa. Grande beijo, hannah.

edu on 22 de abril de 2010 18:32 disse...

:) Que bom que você superou a timidez e tem conseguido seguir em frente.

Eu ainda não consegui. Aos 27 anos sou timido demais.
Fico feliz em lembrar que consegui apresentar seminários e o TCC. Mas falta muito pra deixar de ser timido, ou deixar que a timidez atrapalhe minha vida.

Lembro que quando entrei no colegial eu era tão timido que tinha vergonha até de "dar sinal" pro onibus.

Nunca tentei entrar num curso de teatro... tenho vergonha rsrsr.
Mas me dizem q é realmente bom.

Bel on 22 de abril de 2010 21:57 disse...

Quando criança eu era um bichinho do mato de tão tímida. Já fiz xixi na calça por vergonha de perguntar onde era o banheiro, HAHAHA.

Acabei mudando um pouco (forçadamente) quando comecei a trabalhar, fui obrigada a tratar com público, clientes...

E outra coisa que melhorou minha timidez foi viajar sozinha..

Às vezes falo mais que o homem da cobra, mas outras vezes o bichinho tímido que mora em mim ainda se faz presente.

Thamy on 24 de abril de 2010 14:09 disse...

Sei como é...
hoje ninguém me vê como tímida mas ha alguns anos eu era um horror tinha meu grupo de amigos mas as vezes nem com eles eu conseguia falar dai desenvolvi minha cara de pau, comecei a interpretar um personagem que não é tímido, mas ainda sou aquela menina que fica com as bochechas vermelhas em algumas situações.
hoje consigo apresentar trabalhos, passar por situações que eu não me via passar antes, sou bem mais descontraída, ufa consegui.

 

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