sexta-feira, 20 de março de 2009

Nenhuma patinha será perdoada



Para ler ouvindo - Amy Winehouse - I Heard Love is Blind.

http://www.youtube.com/watch?v=HqRF2GYrusg&NR=1

O Nike marrom, 39/40, disfarçando o encardido de meses, brincava alegremente com meu par de sapatos de bailarina do Moulin Rouge. Toda tensão sexual colada e se esvaindo pelo solado dos sapatos, enquanto o pequinês alaranjado (deixem o alaranjado aí, achei que dava um tom poético) de dentinhos tortos observava tudo, curioso.

O Cão, é, era assim que era o nome dele, provavelmente pensava que ser cachorro era mais fácil, afinal é só ir ali na cachorrinha, abanar o rabo, PLU, amor, filhotinhos forever, beijos me liga. Nada de pés, nada de mordiscar os lábios, nada de consciência batendo, tudo simples, livre, sem arrependimentos. Enquanto era acarinhado não tirou os olhos de nós, testemunha silenciosa, de um crime-não crime, cinco segundos de dedos entrelaçados, enquanto eu morria - porque, eu sempre morro - de raiva, remorso e satisfação pelo desafio. Nenhuma patinha almofadada seria perdoada, nenhum Nike marrom arrotando corações era inalcançável.

Nada era maior que a vontade de enfiar as unhas no meio dos cachos enormes, mas não. Não, nenhum de nós podia, tudo impossível, reputações a zelar, os órgãos vitais pulando boca afora e os pés (os meus agora só de meias soquete) uma parte do corpo com mais sensibilidade do que imaginei. Tudo em nome de manter a alma branca; a alma dele branca, já que eu não devo nada a ninguém; afinal pés sempre serão só pés, nunca órgãos sexuais (nota mental: mentira), nunca notados, partes (in)sensíveis. Por sorte pés não são almofadados.

Já que nada acontece, resolvo levantar, apagar as luzes, ir embora. Ele tira um cacho que incomoda no meio testa, encosta a ponta dos dedos amareladas de cigarro vagabundo no meu braço. Olha pra mim com a cara mais deslavada do mundo, o Nike encardido cheira a talco de bebê, aperta meu braço como apertou o pobre Cão. Oh, por favor Deus, me deixe ir pra casa sem me sentir mal comigo mesma esta noite-penso eu. Eu não posso, mas o desafio sempre me motiva, com ele não foi diferente. Ele me abraça, então, o cacho largo enrosca no meu cabelo platinado, encosta de leve os lábios no meu pescoço. Eu seguro ele junto de mim mais um pouco, é a única vez, afinal, a única. Ninguém sairá magoado, eu não sou a causadora de nada dessa vez, vou chegar em casa e desmaiar e vomitar e ver televisão. Deixo meus braços descerem pelas suas costas e me viro em direção a rua. Tchau, porque adeus é demais pra minha cabeça né.

Nem começo e nem fim. Só o dever cumprido.

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Até a próxima sexta neste mesmo batcanal, neste mesmo horário.

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Postado por Heleninha às 00:01

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