segunda-feira, 16 de março de 2009

Deus e o Resto

Desde que o mundo é mundo, existe a religião. E desde que existe a religião, existem respostas pra compensar as dúvidas do ser humano. Respostas: algumas absurdas, outras nem tanto, do mesmo jeito que tudo que se propõe a dar respostas pode parecer errado, e nem por isso deixa de ser uma resposta. De que o mundo é uma superfície plana fixada no dorso de quatro elefantes, à crença de que nascemos por amor de algum Deus solitário, existe um milhão de crenças – bonitas e até poéticas – que se propõe a presentear a curiosidade humana com a novela do universo.


Ser humano nesse mundo cão é uma coisa louca. De repente estamos aqui, ao lado de tantos seres da mesma espécie, trabalhando, mexendo em computadores e fazendo trilhas ou caminhadas nos domingos ensolarados. E divagando sobre o sentido da vida, pra onde vamos depois que morremos e o que vamos comprar para o almoço de sábado. E a gente faz isso com tanta normalidade, como se fosse a coisa mais comum do universo, que dificilmente a gente se dá conta do quanto é incrível podermos fazer essas perguntas. Quer dizer, já que somos todos poeira estelar, poderíamos muito bem estarmos agregados à um montinho de poeira jogada aí no universo, e não como humanos pensantes e curiosos aqui. A gente tende a não ver como é grande o fato de estarmos nisto, e é então que a gente erra: tudo isso faz parte de uma série de coincidências inacreditáveis que de repente nos põe no mesmo balaio de gatos, junto com o trabalho, o computador e as outras pessoas fazendo caminhada aos domingos. Junto com tudo que só existe aqui no planeta, esse lugar que agrega tanta coisa diferente coexistindo ao mesmo tempo.

E eu acredito que se tudo, tudo, tudo que fizemos até agora e faremos daqui pra frente pudesse ser condensado numa única pergunta, essa seria um grande ponto de interrogação após a palavra “Deus”. Porque dos elefantes gigantes até os dias de hoje, quando inventamos a cura pra tuberculose (mas não inventamos a cura pra solidão do ser humano), a grande pergunta continua sendo: há alguém nos regendo lá de cima?
E essa resposta... bem, essa resposta é parte do processo de descobrimento pessoal de cada um. Não existe uma resposta certa, e nem um católico pode estar mais certo que um muçulmano e vice-versa, mas a verdade é que permitir-se esses questionamentos é um ato e tanto de coragem. Porque, veja bem, se você acredita em Deus, metade das explicações que o homem procura já estão solucionadas. Depende também de em qual Deus você acredita, mas todos eles trazem uma carga de respostas preestabelecidas e segundo as quais nós todos já temos um futuro triste ou feliz pela frente. Você pode estar certo, e então sua vida deve ser a coordenação de passos sem falhas pra alcançar o final feliz, como você pode estar errado – e, ao fingir que não somos cheios de falhas por natureza, e de que nossos erros são culpa de uma entidade maligna poderosa/afastamento da entidade benigna poderosa/fruto da nossa própria maldade, perder alguma sensibilidade importante ao enxergar os outros seres humanos (e é essa sensibilidade que tanto ateus quanto evangélicos não podem perder). E você pode não acreditar também, e, bem, sobre esse caminho, cada um precisa dar seus próprios passos.

Hoje, eu não acredito em Deus. Não falo isso com mágoa ou ressentimento. É apenas fruto das minhas próprias convicções pessoais. Não acho que estejam erradas outras pessoas que possuam dúvidas/respostas diferentes das minhas, acredito que isso tudo é apenas resultado dessa pluralidade universal. Porque acreditar ou não, não é tão importante quanto perceber que partimos todos do mesmo pressuposto inicial, das mesmas dúvidas. Que somos, no final das contas, a mesma coisa por vias diferentes.

Somos todos poeira estelar, é fato. Se existe alguém lá em cima olhando, ou se somos o projeto do acontecimento chamado universo, e que a ciência estuda – com o mesmo afinco que um curioso lê a Bíblia ou o Corão –, é uma pergunta pra qual não existe resposta certa. Existem apenas dúvidas, e questionar-se talvez seja mais importante que descobrir a resposta. Porque questionar-se faz parte de um processo de amadurecimento pessoal, do crescimento da própria consciência.

Acreditando ou não em Deus, o essencial é não deixar de reconhecer a tremenda importância de estarmos aqui. Porque ateus, cristãos, budistas e judeus, de alguma forma inexplicável, nasceram da mesma forma e convivem no mesmo lugar, simultaneamente. Somos pára-quedistas de um lugar único. Não seria esse o maior milagre do universo?

penelope@corporativismofeminino.com

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Postado por C. K. às 06:00

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