quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Maquiando o passado

Estudei parte da minha infância em colégio de freiras. Onde éramos amedrontados com possíveis castigos, obrigando-nos a uma disciplina hipócrita. Afinal, se nos comportávamos silenciosamente como mortos (e não como crianças) era apenas com o intuito de não amargar em pé durante toda uma manhã de um dia de sol. Esses lugares, ao meu ver, formam pessoas fingidas, reprimidas e/ou enrustidas.

Veja, na escola não havia isso de lançar uma frase criativa ou fazer uma gracinha infantil porque corríamos o risco de sermos sumariamente humilhados, com adjetivos como "palerma" ou "cretino". E qual foi a minha surpresa ao reencontrar alguns colegas daquela época e ouvir daquelas bocas que sentiam falta. Sim, sentiam FALTA! Eles lembravam com saudades das Irmãs cuspindo enxofre enquanto rezávamos o Pai Nosso. Lembravam das vezes que tiveram que segurar a urina para não interromper as aulas. Lembravam até das vezes que chegaram atrasados e que foram humilhados ali, na frente de todos, sem pudor. Eu lembrava ainda emputecida da vez que desmaiei para não interromper a aula e não sentia nenhuma saudades.

O fato é que as pessoas criam uma gama iluminada do passado. O ex-namorado é sempre o cara da sua vida. Aquele parente que morreu era o máximo. Aquela professora que fez você dar vexame perante a turma se torna hilária, inesquecível e querida. O passado é sempre gratificante, sempre queremos voltar, experimentar novamente. Tecemos uma cortina dourada no passado e, vez ou outra, sentimos o perfume daquele tempo, inebriados pela vontade de estar lá... Com as Irmãs exalando enxofre nas suas narinas, por exemplo.

Ora, que acontece com todos nós? Certo, sei que era mais simples ser criança, e não se preocupar em vender o almoço pra comprar o jantar. Sei que é mais leve... Mas, certamente, quando você era criança desejou não ser mandado ou decidir pra onde ir, não? Quantas vezes você se mal-disse por não andar nas próprias pernas?

Então, vivemos nessa de enfeitar o passado! Esquecendo que o presente, no futuro, será evocado como a melhor fase da sua vida. Enquanto estive enferma e com mal-estar não pude vislumbrar, por exemplo, que meus amigos estavam comigo e esta fase que na época parecia a pior dos meus dias.... HOJE eu lembro dela com saudades, rememorando o quanto aprendi e quantas viagens fiz. Sai até um suspiro involuntário enquanto escrevo tais palavras.

O que quero dizer é que nada foi tão bonito, nada é tão bonito que a oportunidade de enfeitar o hoje. A inacessibilidade do passado é atraente e inebriante, mas trazê-lo para os lençóis só vai fazer com que você perca um pouco do seu presente...

Sei que tudo pode soar meio clichê, meio auto-ajuda. Não me importo que alguns leiam assim. Mas, acredite, nenhum passado é tão ultra-mega-hiper-super incrível como parece.

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Postado por Sarita às 01:10

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