quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Delírios de Consumo

Estou economizando há quase dois meses. E me sinto orgulhosa por isso. Antes, além de poluir a cidade com meu carro e gastar quase R$200,00 por semana de gasolina, eu ainda dava ao flanelinha R$2,00. E se parasse em outro lugar, então, mais R$2,00. Agora não, tomo um metrô abarrotado às 7 da matina por míseros R$2,00 e levo a minha garrafa térmica com água que sempre encho no shopping. Logo, nem compro refrigerantes que só me engordam, e nem preciso ficar pagando R$1,00 por água que temos de graça em bebedouros comerciais! Sem falar que ando de salto alto da minha casa para estação e da estação para o trabalho, o que faz com que eu me exercite até fora da academia! Não é fantástico? Eu acho!

A minha vida desprendida de gastos desnecessários parece mesmo incrível, digo emputecida, enquanto procuro um bebedouro com água gelada e me equilibro em pés que parecem vestir manequim PP. Brasília com uma umidade de dar inveja no Deserto do Saara faz com todos queiram um sorvete, uma coca-gelada ou um ar condicionado de shopping na velocidade máxima. Então, eu decido que não quero nada disso: EU QUERO AQUELA BOLSA!

Sim, estava eu e uma amiga caminhando no shopping quando vi a bolsa dos meus sonhos num cabide de vitrine. Na hora não a reconheci, até porque nunca usei nada dourado. Mas ela era dourada! Dourada! Esmaeci quando entendi que, de fato, a bolsa era dourada. E, sim, eu não uso nada dourado. Inclusive jóias de ouro (amarelo) não é um bom presente para me dar, certamente, eu venderia. Não acho que dourado combine com a minha morenice tropicana e, por isso, tudo que é dourado sempre me arranca um “Que brega!”. Mas a bolsa era algo ultra-mega-hiper-super elegante e, não era só isso, ela era imensa, o que me atraía ainda mais. Esquivei-me, mas a minha amiga se precipitou para dentro da loja conferindo o preço. Choquei-me com o valor, era realmente incrível: Menos de R$100,00. Descobri que havia passado 2 anos da minha vida gastando dinheiro com gasolina, quando na verdade poderia comprar DUAS BOLSAS MARAVILHOSAS iguais aquela 1x na semana.

Na mesma hora recitei meu mantra “Pulsação 12. Pulsação 12. Pulsação 12”. A minha voz secreta me esbofeteou: "Controle-se, é só uma bolsa e ainda é DOURADA! Que ridículo, como você poderia comprar uma bolsa DOURADA? Enlouqueceu?”. Olhei para a bolsa com desdém e disse a minha amiga “Ela é bonita, mas eu não tenho NADA dourado, além disso estou economizando! Vamos almoçar...”.

Percorri o olho no cardápio e nada agradava. Pensei que quando terminássemos de almoçar, eu poderia voltar lá e perguntar em quantas vezes a vendedora poderia parcelar aquela bolsa e, CASO ela parcelasse, eu compraria. Mas a temperatura de Brasília fez a minha amiga desfalecer e lá vamos nós embora do shopping sem a bolsa, digo, sem o almoço.

Dormi pensando na bolsa e entendi que meus figurinos não combinariam com ela. Era só mais uma bolsa inútil no fundo do armário. Até agradeci por minha amiga ter passado mal, afinal eu não me rendi ao consumismo barato. Minha amiga acabou me salvando, vejam vocês!

No dia seguinte, ao ligar o computador no trabalho... A primeira coisa que fiz foi acessar o site da loja e lá estava a bolsa com uma descrição fantástica, em linhas gerais dizia quão RETRÔ e FASHION ela era. E, pasmem, ela podia ser parcelada em 2x sem juros. Pensei “Que maravilha! Que pechincha! Claro que vou comprar!”. Sai para o almoço mais cedo, temendo não encontrá-la na vitrine. Mas lá estava a danadinha me esperando! A loja estava cheia e uma moça de uniforme cinza me cumprimenta com um “Você gostou?”. E eu olho para a bolsa mais uma vez “Vou levar. Ela é dourada, não é?”. Por um minuto pude ler o pensamento da vendedora “Não, filha, é roxa!”.


Enquanto ela a embrulhava com todo cuidado num papel de seda, eu dizia “Então, podemos parcelar em 2x, não é mesmo?”, e sacudia o meu cartão de crédito, também dourado. “Não, senhora, não dividimos este valor!”. Revirei os olhos pronunciando “Mas eu vi no site que...”. Arrogante, ela me responde: “No site tem frete por isso eles parcelam”. Sinto-me arruinada. A condição era SÓ comprar SE fosse parcelado. “Lembra, Zíngara? Você impôs essa condição. Então, saia daí agora!”. A vendedora debocha de mim dizendo que “Essa é a nossa última peça!”. Na mesma hora sinto uma vontade extrema de dizer “Ponha de volta no lugar, não tenho nada que combine com uma bolsa DOURADA, além disso, eu achava que podia parcelá-la!”, mas a minha boca pronuncia “Tudo bem, eu adorei a bolsa mesmo!”.



Uma semana se passou depois que comprei a bolsa, ela continua embrulhada. Ela é linda, acreditem, mas é dourada! Ela é excêntrica e elegante, acreditem, mas é dourada! Acabo de perceber que terei que comprar um sapato que combine com ela. E, ah, uma roupa, talvez um vestido ou uma saia. Talvez eu compre pulseiras também... Porra! Mas quem disse que a moda é andar combinando? Talvez eu volte a andar de carro...


Zíngara


(Contaminada pelo livro Os Delírios de Consumo de Becky Bloom).

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Postado por CF às 07:33

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